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Afinal o que é a mídia?

 

ADRIANO DUARTE RODRIGUES
Licenciado em Sociologia e doutor em Comunicação. Professor Catedrático emérito da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa (UNL). Autor de vários livros, entre eles Estratégias da comunicação (Presença, 2001, 3ª ed.), Comunicação e cultura (Presença, 2010, 3ª ed.), A partitura invisível (Colibri, 2005, 2ª ed.) e O paradigma comunicacional (Calouste Gulbenkian, 2011). E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.


 

Nos últimos anos, comecei a achar estranho o fato de os autores que estudam a mídia raramente clarificarem o sentido deste termo. O resultado desta falta clarificação tem como consequência não sabermos ao certo se os fenómenos que investigam têm realmente a ver com a mídia ou se a m´dia não serve antes de pretexto ou de alvo dos fantasmas, ora dos que idolatram, ora dos que demonizam as inovações técnicas que fazem parte da sua experiência.

 

Tomemos o exemplo das chamadas análises críticas do suposto discurso da mídia. Será que os fenómenos discursivos que as pessoas observam nos discursos produzidos em ambientes midiáticos são diferentes dos fenómenos que encontramos em discursos produzidos noutros ambientes, como nos discursos que as pessoas produzem, por exemplo, durante um jantar entre amigos ou em família, no balneário de um ginásio, durante os transportes públicos ou num bar? Por detrás destas análises existe a pretensão da existência de discursos não midiáticos. Mas será que haverá discursos não mediáticos? Concretamente, será que, por exemplo, as marcas racistas, sexistas, fascistas, que aquilo que costumam identificar as análises que pretendem estudar os supostos discursos da mídia têm propriamente a ver com a mídia ou podemos encontra-las em quaisquer outras atividades discursivas das pessoas?

 

De maneira genérica, podemos ainda formular estas questões: será que a mídia faz discursos? De que mídia se trata quando se diz que produzem discursos? Será que afinal a mídia fala? Falar de discurso dos mídia não é uma maneira disfarçada de magia, uma versão atual das fábulas do tempo em que os animais falavam?

 

Para obter os elementos indispensáveis para encontrar resposta para  estas questões, parece-me indispensável começar por identificar aquilo a que damos o nome de mídia.

 

 

O que é a mídia?


Antes de procurar responder a esta pergunta, vou recordar a origem do termo.O termo médium (no plural, media) é um termo latino que foi introduzido em inglês, no final do século XIX, nos Estados Unidos da América, no contexto cultural específico dessa época, para designar três inventos recentemente inventados: o telégrafo, a fotografia e a rádio. O que levava os americanos a designar estes inventos como mídia era o fato de tornarem possível a transmissão de mensagens entre pessoas distantes, objetivo que os médiuns também procuravam atingir nas sessões espíritas que surgiram nessa época. Este neologismo surgiu, por conseguinte, no contexto da associação destas técnicas com o cardecismo e a prática do espiritismo, então muito em voga nos Estados Unidos.

 

O que contribuiu para a conjugação destes inventos com o espiritismo, à primeira vista tão diferentes, foi o facto de a fotografia, a telegrafia e a telefonia serem frequentemente utilizadas, nos primeiros tempos, pelos médiuns, nas sessões espíritas, para sugerir a presença dos familiares e dos amigos falecidos ou que tinham ficado nos países europeus de onde eram originários os colonos do continente americano. Como as fotografias da época não tinham a qualidade e a precisão das fotografias de hoje, os retratos davam a impressão de estar rodeados por uma espécie de auréola que era interpretada como a representação da aura ou da alma das pessoas retratadas. Era esta impressão que os médiuns utilizavam para provocarem a ilusão da presença dos familiares distantes ou dos entes queridos desaparecidos. Por seu lado, a batida do telégrafo e os ruídos que acompanhavam o som das primeiras emissões radiofónicas, ainda em fase de experimentação laboratorial, que, na época, utilizavam as ondas curtas que, como sabemos, são de difícil sintonização, eram encarados como curiosidades semelhantes às que costumavam ser apresentadas nos circos e nas feiras. Os sons captados eram acompanhados de ruídos semelhantes aos de passos que eram associados ao caminhar por cima de gravilha ou de areia, o que era utilizado pelos médiuns para sugerir os passos das pessoas evocadas pelos participantes nas sessões que organizavam. O entusiasmo com que estes novos dispositivos foram adotados decorria, por isso, da sua natureza telepática, do fato de possibilitarem o contato com as pessoas distantes ou desaparecidas, numa época em que esta possibilidade animava e mobilizava de maneira muito intensa a imaginação das pessoas.

 

 

A dimensão técnica dos media


Como vemos, aquilo que o termo mídia designa compreende objetos técnicos ou artefactos.

 

Gostaria de começar por recordar que, para os seres humanos, a experiência do mundo sempre dependeu da invenção de dispositivos técnicos. Esta dependência, ao contrário daquilo que algumas pessoas parecem pressupor, não é propriamente uma característica do nosso tempo. Não é possível pensar a existência de seres humanos apenas dependentes dos seus dispositivos naturais. A espécie humana esteve desde sempre dependente dos seus inventos técnicos, uma vez que o processo de hominização consiste precisamente na atrofia dos seus dispositivos naturais e na correspondente aquisição da tendência para a elaboração de artefactos que compensem os dispositivos naturais atrofiados.

 

A invenção dos mais recentes dispositivos técnicos a que nos acostumámos a dar o nome de midiáticos e a sua rápida assimilação nas sociedades atuais, ao contrário de que pensam alguns autores a que se costuma dar o nome de pós-modernos, não produz propriamente novas modalidades de experiência, mas artefactos que tornam possível a realização ou a reificação técnica de simulacros das modalidades da experiência que, desde sempre e em todas as sociedades, foram vivenciadas pelos seres humanos. Os dispositivos midiáticos, por mais extraordinários que pareçam ser à primeira vista as suas realizações no nosso tempo, só podem realizar aquilo que já estava desde sempre presente na experiência do mundo dos seres humanos.

 

O ponto de partida da minha reflexão é bem conhecido e está acessível à observação de qualquer pessoa: ao contrário das outras espécies, os seres humanos, ao virem ao mundo, passam por todo um conjunto de processos biológicos que fazem com que nasçam em estado fetal, isto é, em estado biologicamente imaturo. Os seres humanos não são evidentemente os únicos seres vivos que nascem em estado fetal; os outros antropoides têm também esta característica, mas de todos os antropoides são aqueles em que estes processos são os mais profundos, o que faz com que sejam também os que levam mais tempo a atingir a maturidade. São estes processos biológicos que temos que começar por entender se queremos ter uma compreensão daquilo que é a experiência ou, se preferirmos, daquilo que vai distinguir a maneira de estar no mundo dos seres humanos da maneira como os outros seres vivos estão nos seus ecossistemas.

 

Podemos caracterizar os processos biológicos que sofrem os seres humanos ao virem ao mundo como processos regressivos ou de involução dos dispositivos naturais que habilitam os seres vivos a adotar os comportamentos apropriados para sobreviverem, num determinado nicho ecológico, tanto enquanto indivíduos, como enquanto membros da sua espécie. Este processo começa ainda no estado intrauterino e prolonga-se ao longo das primeiras horas depois do parto. Quem observar com atenção o que se passa nas primeiras horas de vida de um recém-nascido pode facilmente verificar que ele consegue ainda adotar os comportamentos próprios da sua espécie, tais como, por exemplo, nadar, mamar, andar, mas que, ao fim de algumas horas, deixa de poder adotá-los, devendo depois seguir todo um processo de aprendizagem que depende da imitação da maneira como os outros seres humanos se comportam, aprendizagem que decorre ao longo dos dois primeiros anos de vida. É a este processo de aprendizagem que se costuma dar o nome de socialização primária (Berger & Luckman 2010).

 

 

A linguagem, a mídia constitutiva de toda a experiência possível


O primeiro e mais importante dispositivo midiático é a linguagem. Mas não é uma mídia como as outras; é a mídia constitutiva daquilo que é para o ser humano o mundo. Na mídia da linguagem estão predefinidos todos as outras mídias, está de antemão prevista a invenção de todas as outras mídias possíveis. É com a aquisição da linguagem que nos tornamos seres abertos ao mundo, adquirimos a nossa condição e nos autonomizamos das coações do meio ambiente, em que as outras espécies estão fechadas (Agamben 2011). É por isso que para os seres humanos só são possíveis os mundos e os dispositivos com os quais os formamos que têm na linguagem, não só a sua tradução, mas sobretudo a sua constituição. Podemos assim considerar que a criança, no momento em que adquire o domínio da linguagem termina a socialização primária e está dotada de todos os dispositivos que lhe permitem constituir o seu mundo. A partir desse momento, a criança adquire o domínio das categorias que a língua materna constitui e coloca ao seu dispor, o que lhe permite ter a percepção do mundo e, dar forma coerente aos objetos da sua percepção. A partir desse momento, toda a experiência possível fica irremediavelmente dependente da midiatização do dispositivo da linguagem, inclusivamente a experiência midiática.

 

Recordar a natureza midiática da linguagem é fundamental para compreender a relação da mídia com o discurso. A linguagem não é uma mídia como as outras médium; é a mpidia constitutiva de todos os mundos possíveis da experiência e, nesse sentido, são os mundos que a linguagem constitui que os outros dispositivos técnicos, as outras mídias exploram e concretizam em sentidos que temos ainda que descobrir. Para entendermos a natureza das mídias e a sua relação com o discurso, temos agora que identificar as diferentes modalidades de objetos técnicos.

 

 

Utensílios, instrumentos, máquinas,  dispositivos


Aquilo a que nos habituámos a dar o nome de mídia são objetos técnicos distintos dos utensílios, dos instrumentos e das máquinas. Tal como os outros objetos técnicos, são artefactos inventados para a realização de atividades humanas, mas distinguem-se dos outros pelo fato de estarem incorporados ou conectados ao organismo dos seres humanos e de, assim, o disporem, não só a responder aos estímulos ou aos impulsos que recebem do mundo em que estão inseridos, mas também a provocar novos estímulos e novos impulsos que desencadeiam respostas por parte de outros organismos.

 

Os utensílios e os instrumentos caracterizam-se pelo fato de a sua natureza técnica residir na materialização e na exteriorização da sua tecnicidade e de a sua funcionalidade técnica depender da sua manipulação ou da sua acoplagem ao corpo. Assim, por exemplo, o martelo e o microscópio ótico mostram explicitamente, na sua configuração material, a sua natureza utensiliar e instrumental. O martelo só realiza as suas funções técnicas quando é manipulado e o microscópio ótico só realiza as funções para que foi inventado quando está acoplado à vista.

 

Por seu lado, as máquinas caracterizam-se pelo fato de a sua natureza técnica também residir na materialização e na exteriorização da sua tecnicidade, mas, ao contrário dos instrumentos e dos utensílios, a sua funcionalidade técnica não depende da sua acoplagem ao corpo, uma vez que se trata de artefactos dotados de individualidade ou autonomia em relação à sua manipulação. A individualidade das máquinas decorre do fato de incorporarem, na sua estrutura, elementos técnicos que desempenham as funções dos órgãos dos seres humanos e de funcionarem por isso de acordo com princípios análogos aos que regulam o funcionamento do organismo humano. É por isso qua a sua invenção só se tornou possível depois da descoberta das leis que regulam e a que obedece o comportamento humano, em particular, as leis da termodinâmica, assim como da invenção de materiais e artefactos que tornam possível a sua realização da sua individualidade técnica.

 

Os dispositivos técnicos distinguem-se, portanto, tanto dos utensílios e dos instrumentos como das máquinas, pelo fato de a sua natureza técnica não ser exteriorizada e de a sua funcionalidade técnica não depender da sua acoplagem ao corpo, mas da sua interiorização no organismo. Podemos considerar que, em geral, os objetos técnicos tendem a tornar-se dispositivos técnicos, à medida que se vão concretizando e adquirindo a sua individualidade técnica, ao longo do que Gilbert Simondon, em 1989, designava processo sociogenético, e vão sendo assim integrados na própria experiência humana do mundo. Ao atingirem um nível elevado de incorporação no organismo humano, os dispositivos técnicos não passam apenas a constituir a experiência, mas passam a fazer parte da própria experiência que os seres humanos têm do mundo ou, como diria McLuhan, passam a constituir o fundo sobre que se recortam as formas ou as figuras da nossa percepção do mundo (McLuhan 1989). É por isso que, quando estamos envolvidos no processo de desencadeamento das respostas aos estímulos que recebemos do mundo, não nos damos propriamente conta da sua estrutura e do seu funcionamento ou, quando estamos interagindo com o mundo e uns com os outros, não nos damos conta da linguagem que estamos utilizando, por estarmos precisamente a ser por ela dirigidos para adotar os comportamentos linguísticos adequados à interação em que estamos envolvidos, obedecendo assim aos condicionamentos dos dispositivos linguísticos que interiorizámos ao longo da socialização primária. É por isso só pela reflexão, quando tomamos distância em relação aos comportamentos desencadeados pelos dispositivos da linguagem, e procuramos, deste modo, objetivá-los simbolicamente, falando deles, que podemos dar conta da sua natureza e do seu funcionamento. É, por conseguinte, uma vez desconectados dos dispositivos que, no entanto, continuam a comandar os nossos comportamentos, que podemos dar conta da sua natureza e do seu funcionamento.

 

Refletir a natureza e o funcionamento do dispositivo da linguagem é, no entanto, uma atividade que só podemos realizar continuando a obedecer-lhes. É este paradoxo que caracteriza qualquer tentativa de estudo da mídia e que faz com este empreendimento seja, no limite, impossível de realizar completamente. A linguagem é, assim, o dispositivo que constitui o nosso mundo e, por isso, nos permite, ao mesmo tempo, interagir com o mundo que ele constitui e dar conta dos dispositivos que o constituem.

 

 

Para uma antropologia da experiência técnica


A experiência técnica está, por conseguinte, relacionada com o próprio processo de hominização, em especial com a aquisição da postura ereta, decorrente da libertação dos órgãos de relação, situados de maneira especial, no fácies e nos membros superiores, onde estão localizados os dispositivos naturais encarregados de assegurar, tanto as funções, quer da locomoção, quer da captação e da manipulação dos alimentos, como a interação com o mundo e as interações inter e intraespecíficas.  É o que fazia dizer a Leroi-Gourhan:

O homem fabrica utensílios concretos e símbolos, uns e outros dependendo do mesmo processo ou, antes, recorrendo no cérebro ao mesmo  equipamento fundamental. Isto levou a considerar não só que a linguagem é tão característica do homem como o utensílio, mas que não é senão a expressão da mesma propriedade do homem. (Leroi-Gourhan 1964: 162-163).

É por isso que, por mais que recuemos no tempo, não encontramos vestígios da presença humana que não estejam acompanhados de vestígios de artefactos reveladores da sua experiência técnica, indiciadora da necessidade de constituição do seu mundo próprio. Daí também que observemos, desde as épocas mais recuadas, o processo de invenção de técnicas destinadas, tanto a perpetuar a linguagem no tempo, como a alargar a sua ressonância no espaço.

 

A experiência técnica parece, assim, estar desde a sua origem intimamente associada à consciência do tempo e, em particular, da mortalidade, se tivermos em conta que é nos monumentos funerários que encontramos os vestígios de utensílios e de documentos gráficos. Deste modo, é nos seus artefactos que os seres humanos parecem pretender perpetuar-se a si próprios e ao seu mundo para além da efemeridade da sua existência mortal.

 

 

A lógica da invenção técnica


Gilbert Simondon foi provavelmente o autor que melhor definiu a lógica da invenção técnica, considerando-a como um processo sociogenético de progressiva concretização dos objetos técnicos. Partindo de uma origem em que precisam da intervenção do homem para concretizarem a sua tecnicidade, os objetos técnicos tendem a ser progressivamente concretizados, ao longo de um processo que os autonomizam relativamente à intervenção humana, adquirindo assim a sua própria individualidade técnica (Simondon 1989). Este processo consiste, segundo este autor, na progressiva invenção de soluções para as incompatibilidades das exigências dos seus diferentes componentes, fazendo com que progressivamente cada um deles deixe de realizar apenas uma tarefa e de exigir a intervenção humana para resolver pontualmente as incompatibilidades entre os seus diferentes componentes, passando assim todas a contribuir para o objetivo comum do todo. Vemos assim que, para este autor, o conceito de interação sinergética é o conceito chave da lógica a que obedece o processo sociogenético de invenção técnica:

É essencialmente a descoberta das sinergias funcionais que caracteriza o progresso no desenvolvimento do objeto técnico (Simondon 1989: 37).

Por seu lado, Marshall McLuhan considerou os media como dispositivos que prolongam os nossos órgãos dos sentidos que, deste modo, formam o fundo de que recortamos as figuras das nossas percepções (McLuhan & Powers 1989). O autor distingue assim os media que utilizam prioritariamente o funcionamento do hemisfério esquerdo do cérebro dos media que utilizam o hemisfério direito. A escrita alfabética, que tem dominado a civilização ocidental, tem privilegiado o funcionamento do hemisfério esquerdo e habituou-nos a uma percepção do mundo assente no sentido da vista que nos dá do mundo uma visão fragmentada e linear. Para McLuhan, os media electrónicos privilegiam a percepção auditiva, global que retoma, de algum modo, a experiência da oralidade que predomina nas sociedades tribais. É por isso que, para este autor só a aprendizagem de uma percepção do mundo que equilibre o funcionamento dos dois hemisférios cerebrais, valorizando de igual modo a percepção visual e as visões acústica e táctil, pode dar do mundo uma visão equilibrada.

 

 

As diferentes modalidades de dispositivos mediáticos


Gostaria agora de chamar a atenção para a existência de duas categorias de dispositivos midiáticos. A primeira é a que é formada pelo conjunto das próteses e das órteses. As próteses são dispositivos midiáticos utilizados sobretudo em medicina e que se destinam, respetivamente, a substituir órgãos inexistentes ou a tornar mais eficiente o funcionamento de órgãos deficientes. Pertencem a esta categoria os órgãos artificiais utilizados nos transplantes e nos implantes. As órteses são, por exemplo, os óculos, os relógios de pulso, os pacemakers ou marcapassos, dispositivos técnicos midiáticos que são incorporados na experiência humana para intervirem, respetivamente, na percepção visual, na percepção do tempo e no funcionamento do coração.

 

Mas existe uma outra categoria de dispositivos mediáticos, a que é formada pelo conjunto dos artefactos que são interiorizados pelos dispositivos naturais que nos habilitam a produzir discursos, a falar, dispositivos a que podemos dar o nome de dispositivos midiáticos de enunciação ou, se preferirem, de dispositivos midiáticos discursivos. É a estes artefactos que as invenções técnicas a que, no século XIX, os americanos deram o nome de media pertencem. É por isso que, para entendermos a sua natureza e o seu modo de funcionamento, temos que ter presente a natureza e o funcionamento dos dispositivos naturais da enunciação, dispositivos que desencadeiam as interações discursivas.  Os dispositivos midiáticos de enunciação, tais como o grafismo, as diferentes modalidades de escrita, a imprensa de carateres móveis, o telégrafo, a fotografia, o telefone, a rádio, a televisão, os mais recentes dispositivos cibernéticos são inventos que intervêm no desencadeamento das interações discursivos dos seres humanos, tal como por exemplo o marcapassos ou o pacemaker intervém no funcionamento do coração, incorporados nos nossos dispositivos naturais de enunciação. Daí que a característica provavelmente mais importante dos dispositivos midiáticos é o fato de só nos apercebermos do seu funcionamento quando deixam de funcionar, quando falham, quando o seu funcionamento é deficiente. Esta característica distingue-os evidentemente das outras modalidades de objetos técnicos e decorre do fato de serem dispositivos técnicos, isto é, de serem artefactos incorporados, de estarem interiorizados no nosso organismo.

 

Os estudos de comunicação que pretendem ter as mídias como objeto, mas que ignoram esta característica não têm, por conseguinte, as mídias como objeto de estudo, mas outras questões que não têm propriamente nada a ver com as mídias, mas com questões particulares que têm a ver com o funcionamento da sociedade, tais como o poder, as desigualdades sociais, determinados estereótipos, tais como o racismo, o sexismo, a violência. Partem do pressuposto de que estas questões  dependem do funcionamento das mídias, como se o funcionamento das mídias fosse uma realidade exterior à própria experiência do mundo própria da sociedade que as inventou e que as utiliza. Os dispositivos midiáticos da enunciação têm influência sobre os nossos comportamentos e têm poder, mas essa influência e esse poder escapam à nossa percepção e, por isso, somos incapazes de os discernir, uma vez que coincidem com a própria experiência que nós próprios constituímos.

 

 

Referências bibliográficas:

Agamben, G. O Aberto.  O Homem e o Animal, Lisboa, ed. 70, 2011.
Berger & Luckman. La Construction Sociale de la Réalité, Paris, Méridiens, Klincksick, 1992.
Conan Doyle, A. The History of Spiritualism, London, New York, Toronto and Melbourne, Cassel and Company Ltd., 1926.
Heideger, M. Etre et Temps, Paris, Gallimard, 1986.
______________. La Question de la Technique, in Essais et Conférences, Tel, Paris, Gallimard, 1986b, páginas 9-48.
Leroi-Gourhan, A. O Gesto e a Palavra. 1. Técnica e Linguagem, Lisboa, Ed. 70; 2. Memória e Ritmos, Lisboa, ed. 70, 1983.
McLuhan, M. & Powers, B. R. The Global Village. Transformations in Word Life and Media in the 21th. Century, New York and Oxford, Oxford University Press, 1989.
Peters, J.D. Speaking into the Air. A History of the Idea of Communication, The University of Chicago Press, 1999.
Simondon, G. Du Mode d’Existence des Objets Techniques, Paris, Aubier, 1989.

 

 

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NOTAS

Ver, a este propósito, John Durham Peters, Speaking into the Air. A History of the Idea of Communication, The University of Chicago Press, 1999, páginas 94 e ss.; 137-225. Peeters conta as proezas de duas irmãs Fox, Kate (1837-1892) e Margaret (1833-1893), em Hydesville, nos arredores de Nova Iorque, onde viriam a nascer o Mormonismo, os Adventistas do Sétimo Dia, o movimento feminista, mas também a Kodak e a Xerox. As duas irmãs ficaram célebres pelas sessões espíritas que realizavam em casa e que são narradas por Sir Athur Conan Doyle, no seu livro The History of Spiritualism, publicado em 1926. Nessas sessões simulavam a vinda das pessoas que as pessoas invocavam com discretas batidas do alfabeto Morse. [VOLTAR]

 

 

A distinção entre ecossistema e mundo  decorre do fato de, nos seres humanos, a interação dos seus dispositivos naturais não se dar imediatamente com o meio ambiente, mas com mundo que eles criam, ao contrário das outras espécies  que estão fechadas no meio ambiente para o qual os seus dispositivos naturais estão imediatamente predispostos e biologicamente programados. Era por isso que Heidegger dizia que aquilo que caracteriza o ser humano, o Dasein, é a abertura, o ser-no mundo (Heidegger 1986: 86 e ss.). [VOLTAR]

 

 

O galo anuncia pontualmente com o seu canto a alvorada do novo dia. Tive uma cachorrinha que me acordava todos os dias pontualmente à mesma hora, que pontualmente, ao fim da hora que durava a minha aula semanal de piano, saltava da cama dela e vinha retirar os meus pés dos pedais. Os seres humanos também podem adotar evidentemente comportamentos semelhantes, mas para isso estão dependentes do relógio que tiveram que inventar. [VOLTAR]

 

 

 

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